A Astrologia está na vida, está em tudo e quem é do balacobaco celeste, observa a vida por este viés, estabelece relações, constrói sua viga mestra, seu simbolismo e entendimento a partir dela.
Logo abaixo conto um causo que vivi há alguns anos atrás, para falar a verdade nem lembro se já contei ou apenas pensei em fazê-lo. E que me faz pensar até hoje como somos temáticos, como magnetizamos energia que tem a ver com experiências subjetivas ou reais. Identifico em mim esta experiência como mais uma que remete ao meu Saturno. Em outros estas coisas remetem muito à Lua e assim vai. Se observe, mesmo que não saiba nomear astrologicamente a vivência.
Anote, junte material. E quem sabe
não se ponha a registrar, a dar alguma forma/bordado/pintura/texto/ palavra/música/poema/manifesto/depoimento
ao seu material, de alguma forma?
Pois então.
Logo cedo, fui pegar o ônibus em direção à cidade, disposta a
enfrentar a via sacra costumeira, fazer o que precisava fazer e voltar logo
para casa.
A praia estava poesia, milagrosamente nenhum carro estacionado
na areia, apenas canoas, redes, a luz do amanhecer.
Fiz o que tinha que fazer, fui para a rodoviária urbana
lotada, suja e barulhenta a fim de pegar o próximo ônibus.
Acomodei minhas coisas e apesar de estar no final da fila
consegui um banco para sentar.
Ônibus já saindo e de repente entra um homem de uns 30 anos,
enorme, com olhos verdes estilo bola de gude, careca, correndo, pulando,
assoviando e fazendo sons incompreensíveis, como uma criança em tamanho de um
super adulto. Foi lá para o fundão e
ainda pensei comigo: “Ufa, vou dormir sossegada”.
O trajeto demora por volta de uma hora e meia, o suficiente
para eu não apenas dormir como sonhar esteja ele cheio ou vazio. Cheio, me dá mais sono ainda, pois não tenho
que lidar com a aflição do aperto das pessoas apinhadas se segurando por conta
das estradas esburacadas, das inúmeras paradas no meio da estrada em que o
ônibus parece ser elástico. Sempre cabe mais um. O fato de saber que se eu
quiser posso descer na estrada doma a minha claustrofobia. Só esperar pela
próxima parada que o ar livre me espera. O meu causo se resolve sabendo que
posso sair quando quiser, então, vai sempre tudo bem.
Voltando ao moço. Dali uns dez minutos ele se posta ao meu
lado no corredor. Olha para mim fixamente e pergunto se quer sentar. Ele
assinala que sim, passa por cima de mim e se acomoda feliz. E imediatamente,
ouço as pessoas se arranjando mais para trás do ônibus e também na frente.
Estranhei, mas como meu índice de paranoia é baixíssimo, não me ative a isso.
Aí então ele começa a puxar conversa, mesmo não sabendo
falar. Apenas fala mãe, assovia, faz muitos sons, gestos e barulho de cavalo
trotando. O fato é que ele se fazia entender perfeitamente bem. E quando eu
dava uma bola fora entendendo errado o que queria me dizer, ele me corrigia,
batia na própria testa, gesto de quem acha o outro “tapado das ideias”, sério,
porém sem crítica. Como se eu apenas fosse incapaz de entender e então tinha
que me explicar novamente.
Me pede uma caneta, eu dou. Me pede papel, dou também. Anotou alguma coisa no papel, me deu para
ler, mas eu estava cegueta, sem encontrar meus óculos. Apontou minha bolsa e
fez que era para eu guardar o papel. Depois me mostrou uma tatuagem no braço,
que também não consegui enxergar, acho que tinha uma estrela e algo escrito,
não era grande.
Seguimos caminho e me disse que queria rezar, tomar banho,
comer e dormir.
Perguntou onde eu morava, falei. Como o ônibus primeiro se
dirigiria até a Divisa entre São Paulo e Rio de Janeiro, e depois faria o
caminho de volta, perguntei se iria para a Divisa e ele afirmou que sim. A cada
cinco minutos fazia o gesto de que o ônibus estava seguindo e me perguntava
qual era o destino e eu repetia que era a Divisa.
Perguntei se alguém o esperaria e ele disse que sim.
De repente, começou a me chamar de mãe.
Soltou meu cabelo, passou a mão no meu olho.
Queria ir para a minha casa e quando eu perguntava se teria
alguém esperando por ele no ponto final, dizia que sim.
Mostrou o cartão de deficiente que o permitia tomar ônibus
livremente.
Deitou no meu ombro.
Mostrou a perna cheia de uma espécie de feridas pequenas e
esbranquiçadas, secas, fez o gesto de quem toma injeção na veia.
Me chamava repetidamente de mãe e eu dizia que a mãe dele era
outra mulher e que devia estar esperando por ele. Ele dizia que sim e depois
que não, insistindo que eu era a mãe dele.
Chegamos na Divisa e o ônibus que leva ao outro estado já
estava lá. Ele correu fazendo seus
barulhos particulares e entrou no tal ônibus que logo partiu. Ficamos ainda na
Divisa e o vi sentado no último lugar.
Aí um moço que estava sentado no fundão do meu ônibus
perguntou se eu não o tinha reconhecido. Perguntei se eu deveria no que ele
responde se eu não assistia televisão. Respondo que raramente, ele me olha com
cara de que tinha visto uma coisa muito diferente e conta que ele mora na
cidade e estava perdido há mais de um mês. Que sempre andava com a mãe, mas
deve ter se perdido e foi encontrado em uma cidade perto de São Paulo graças à
emissora associada local que tem um departamento de busca por desaparecidos.
Perguntei indignada porque ele não tinha avisado, assim
teríamos evitado dele ir para outro estado, e ele me disse que imaginou que eu
soubesse. Ah tá.
Penso que na tal tatuagem deveria ter um número de telefone,
mas pode ser fantasia minha.
Alguém perguntou se eu não tinha ficado com medo. Retornei à
pergunta questionando se alguém tem medo de criança e que eu tinha era medo de
quem tinha medo e não fazia nada para ajudar, ainda mais conhecendo a história,
ou seja: muitos sabiam que ele costuma fugir e se perder. Sabem onde mora
porque saiu na TV. Se via que era inofensivo apesar do tamanho e do barulho que
fazia.
Cheguei ao meu lugar, desci do ônibus extasiada pela beleza
do mar e pensando que somos temáticos mesmo. Não foi à toa que ele se sentou ao
meu lado, que a única coisa que sabia falar era mãe e que queria que eu fosse
mãe dele.
Chegando em casa peguei o óculos, o papel que me deu e tentei
ligar para o número que estava escrito por ele, com DDD e tudo, mas o número
não existe.
Liguei na tal TV associada,
me atenderam com um mínimo de boa vontade, pareceram anotar o que eu
dizia, pediram meu nome e telefone, insisti que era urgente que entrassem em
contato com a família que já tinha usado o serviço uma vez, expliquei do meu
receio de que ele fosse parar em outro estado, da preocupação da família. A
mulher que me atendeu entusiasmadamente se despediu e desligou. Fim.
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